PretEspaço: descorporificação e desaparição no cinema negro

Terra Preta Cidade
5 min readOct 22, 2021

Anotações de uma visita à Queimado durante o EntreLabs em 25 de Setembro de 2021, por Kênia Freitas

Ruína da Igreja São José do Queimado, no município de Serra, Espírito Santo. Foto: Emmily Leandro.

Uma conversa sobre espacialidades pretas ganha outras camadas quando ela é feita em um território como as ruínas de Queimado — um espaço preto utópico de passado, presente e futuro. E para seguirmos essa conversa imersos nesse espaço de rebelião e luta pela liberdade, precisamos nos perguntar, mas afinal: O que é um espaço preto? E por que? Aqui é fácil pensar no terreiro, na escola de samba, nas periferias… Mas será que conseguimos imaginar além das imagens estereotipadas de especialidades pretas no cinema e na televisão? E que imagens são essas? Será que falar de espaço preto é necessariamente falar de representação preta? E falar em representação preta é falar da presença dos corpos pretos na tela? Essas perguntas não esperam necessariamente respostas fechadas, mas desejamos que nos ajudem a pensar no espaço e na pretitude de uma forma mais especulativa e radical.

Elas emergem também a partir do encontro com as ideias de Michael B. Gillespie no livro Film blackness (2016). Em sua introdução, Gillespie se pergunta: “E se o filme preto pudesse ser algo diferente de corporificação? E se o filme preto fosse imaterial e sem corpo? E se o filme preto pudesse ser especulativo ou apenas ambivalente?”. O que o autor deseja fazer, tendo como base o cinema negro dos EUA, é desatrelar a arte negra de uma função social e racial extra-diegética (obrigatória). Como nos lembra o autor, cinema negro é arte e pode ser mais potente pensá-lo como uma pergunta e a partir de sua capacidade crítica, e não como algo que precisa fornecer respostas ao racismo e as opressões de uma forma geral.

Essa reflexão sobre PretEspaços nos faz questionar então: Como pensar um cinema negro caracterizado não pela presença (menos ainda pela representação) dos corpos negros, mas pela presença de espaços descorporificados e marcados pela desaparição imagética e/ou sonora negra? E dentro dessa nossa imersão coletiva: o que poderia ser um filme preto feito nesse espaço de Queimado agora? Quais vestígios do passado ressoam em nosso presente e nos ajudam a fabular outros futuros?

E nos lembramos novamente do trabalho de Gillespie, dessa vez em co-autoria com Raquel Gates em um manifesto que reivindica a construção de um novo campo para o estudo dos filmes pretos. Sobre a representação, os autores acreditam que: “Devemos parar de defender a representação como um marcador do progresso racial e, em vez disso, começar a nos concentrar nos temas e idéias com os quais essas representações se engajam” (Reivindicando os Estudos de Filme e Mídia Pretos, Racquel J. Gates e Michael Boyce Gillespie, 2018). Somando as perguntas — sem respostas fechadas — os últimos anos pesquisando cinemas negros me fizeram questionar: Como desarticular representação e visibilidade? E como pensar a representação dentro do jogo transparência versus opacidade?

Um aspecto importante que pode nos ajudar a aprofundar a discussão de representação está na dupla dimensão do representar destacada por Gayatri Spivak: representar é falar por (político) e descrever (imagético, narrativo). E o cinema opera na confluência dos dois significados da representação: fala por e descreve — embora nas discussões em torno do tema a dimensão imagética se sobressaia à política.

Outra diferenciação importante sobre a discussão de representação vem de Stuart Hall, quando este distingue as Relações de representação (anos 1960) da Política de representação (anos 1980). No primeiro caso, trata-se de pensar a experiência racial de forma unívoca. Nesse momento, o debate focava nas formas de representação estereotipadas e na invisibilidade negra nas produções culturais inglesas. Já na Política de representação, há o reconhecimento da diversidade de posições subjetivas, experiências sociais e identidades culturais que compõem a categoria ‘negra’. É um novo momento marcado pelo fim do sujeito negro essencial. Pensar espaços pretos no cinema é então querer articular as dimensões políticas e imagéticas da representação a partir da abolição de essencialidades do sujeito negro dentro e fora dos filmes.

Em um texto anterior (“PretEspaço: as cidades não imaginadas”, Multiplot, 2020), tentamos pensar um espaço preto no cinema como a junção do “Espaço sideral & literal + (não) Espaço que está (sempre-já) em-todo-lugar”. Uma junção que combina o desejo de desaparecimento de “O que não tem espaço está em todo lugar” (Jota Mombaça, 2020) e a reivindicação de “Negrum3” (Diego Paulino, 2018), em um filme-manifesto pelo espaço. Um manifesto que aspira “aos cosmos pela simples possibilidade de sonhar. Aspiramos ao espaço sideral para além do etéreo e longínquo. Mas também ao espaço em sua forma mais literal. Espaço. (…) Lutamos pela individualidade de nossos corpos e a pluralidade da nossa negritude ao exercer as múltiplas formas de ser”.

Estar em Queimado, em 2021 nos faz pensar não apenas nos corpos pretos ausentes — mas nas ressonâncias de suas presenças no que materialmente ainda permanece: a mata, as pedras, a terra, a topografia do local. Se muito se fala da repressão e da derrota, nos interessa perceber e sentir também o desejo de liberdade e de utopia dos homens, mulheres e crianças insurgentes. Ainda que como um sonho não realizado, essas pessoas imaginaram, especularam e viveram as suas utopias pretas. E esse desejo utópico também é algo que ressoa deste PretEspaço.

Sobre Kênia Freitas

Kênia Freitas é pesquisadora e crítica de cinema. Fez estágios de pós-doutorado em Comunicação na UCB (2015–2018) e na Unesp (2018–2020). Doutora em Comunicação e Cultura pela ECO-UFRJ (2015). Realizou diversas curadorias, entre elas a das mostras “Afrofuturismo: cinema e música em uma diáspora intergaláctica” (2015), “Diretoras Negras no Cinema brasileiro” (2017–2018), sessão “PretEspaços” na LÂMINA — Mostra Audiovisual Preta (2021) e sessão “Movimentos fabulares” na mostra Cinema Brasileiro: Anos 2010, 10 Olhares. Integrou as equipes curatoriais do IX CachoeiraDoc (2020) e Festival de Cinema de Vitória (2018). Escreve críticas para o site Multiplot!. Ministra cursos e oficinas sobre crítica, cinema negro, afrofuturismo e fabulações.

Sobre a visita à Queimado e o EntreLabs 2021

O episódio #6 do podcast Des-embranquecendo a cidade e o texto aqui apresentado são frutos da parceria com a Cidade Quintal. Entre os dias 23 e 26 de setembro a coletiva teve a alegria de ser a primeira convidada e também construir junto o EntreLabs, uma vivência colaborativa e imersiva, na qual a proposta para momento foi mergulhar em memórias e bagagens transatlânticas, cosmopoéticas e territoriais para 𝐫𝐞-𝐢𝐦𝐚𝐠𝐞𝐚𝐫 𝐚 𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞. Em um dos dias, foi realizada a imersão na ruína de Queimado, que fica no município de Serra e nela tivemos a alegria de receber Kenia Freitas para uma conversa super especial .

Para escutar o EP#06 PretEspaço

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Coletiva multiterritorial e interseccicional que visa educar, pensar, criar, ampliar as narrativas e práticas para des-embranquecer a cidade.